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Liverpool é geralmente lembrada como a cidade dos Beatles. E...?

Poucos sabem que a cidade já foi um dos importantes centros da economia mundial, mas viveu um processo de decadência depois da Segunda Guerra Mundial.

Após décadas de degradação do setor portuário e desemprego em massa, Liverpool passou por uma por uma ampla reinvenção como cidade cultural. 

Mural externo do Museu de Liverpool, lembrando a ligação da cidade com a revolução industrial, com o futebol e, claro, com os Beatles.Cheguei em Liverpool no final de novembro de 2014 para duas semanas de estudo de inglês. Já conhecia um pouco da importância da cidade para a revolução industrial e havia feito uma pesquisa básica do que encontraria na cidade. Ainda assim Liverpool me surpreendeu, se mostrando uma cidade dinâmica e receptiva e ainda com custos consideravelmente mais baixos em relação a Londres. Também, salvo raras exceções, bom humor e senso de hospitalidade.

A diversidade é visível em toda Liverpool, mais ainda nos campus das universidades e entornos, onde se concentram escolas de inglês e alojamentos estudantis.Um manager de um restaurante indiano - depois de se dar o trabalho me explicar todo o cardápio e ficar curioso qando disse que era do Brasil - comentou que Liverpool é uma cidade notadamente mais receptiva aos estrangeiros. Ele próprio era muçulmano, filho de imigrantes indianos e torcedor do Liverpool FC, e gerencia funcionários hindus e cristãos. E ao perguntar sobre racismo um colega de curso, um dominicano negro que pretendia arranjar emprego como chefe de cozinha e permanecer na cidade, este disse que nunca percebeu nada que o incomodasse, ao contrário da Espanha, onde havia tentado morado antes. 

Além de porto, Liverpool era passagem de imigrantes para EUA e Canadá. Alguns acabavam ficando, principalmente irlandeses, que contribuíram para o sotaque incomum da cidade e vários pubs. Portanto, em Liverpool a diversidade e necessidade de conviver com o diferente não é de ontem. Claro que isso nem sempre se deu de forma tranquila, principalmente em períodos de crise econômica, mas a recuperação da cidade, principalmente depois dos anos 1990, se deu justamente ao investir no potencial de Liverpool para o turismo cultural e educacional.

Lambanana, criação do artista japonês Taro Chiezo de 1998, propõe uma brincadeira com a tradição portuária de Liverpool. A lambanana seria uma criatura transgênica combinando os principais produtos de exportação (lã de ovelhas/lambs) e de importação (bananas) da cidade. Diversas réplicas foram distribuídas pela cidade em 2008. Lambananas em frente ao Museu de Liverpool. Ao fundo Albert's Docks.
Lambanana, criação do artista japonês Taro Chiezo de 1998, propõe uma brincadeira com a tradição portuária de Liverpool.  A lambanana seria uma criatura transgênica combinando os principais produtos de exportação (lã de ovelhas/lambs) e de importação (bananas) da cidade. Diversas réplicas foram distribuídas pela cidade em 2008. Lambananas em frente ao Museu de Liverpool. Ao fundo Albert's Docks. 

Ao apostar na revitalização de sua área portuária central - Albert's Docks - com adaptação das suas docas como museus, restaurantes, lojas, hotéis, Liverpool de um passo importante para fazer a cidade mais amigável aos turistas e estudantes que hoje movimentam a sua economia. Em 2008 a cidade obteve um reconhecimento importante desse investimento ao ser declarada Capital Europeia da Cultura. 

Albert's Docks, antigo setor portuário central visto do alto do Museu de Liverpool. Tate Gallery e embarcações no espaço interior de Albert's Docks. Painel dedicado à história dos trabalhadores portuários no Museu de Liverpool.
Albert's Docks, antigo setor portuário central visto do alto do Museu de Liverpool.  Tate Gallery e embarcações no espaço interior de Albert's Docks. Painel dedicado à história dos trabalhadores portuários no Museu de Liverpool. 

 Além dos  museus concentrados na área mais central, mais identificada com a história e vida cotidiana da cidade, é possível perceber um trabalho de sinalização urbana em diversos pontos da cidade. Assim a própria população é envolvida no processo de conhecer a cidade de forma espotânea. 

O grande fluxo de trabalhadores do mar e de imigrantes fez de Liverpool uma cidade pioneira em termos de diversidade étnica e cultural. A exemplo disso, a Chinatown de Liverpool é justamente a mais antiga da Europa.  Informações como essa podem ser encontradas em diversas placas distribuídas pela cidade. O trabalho de sinalização urbana não apenas torna a cidade mais amigável ao turista, como também envolve melhor a própria população local com a história da sua cidade.
O grande fluxo de trabalhadores do mar e de imigrantes fez de Liverpool uma cidade pioneira em termos de diversidade étnica e cultural. 

A exemplo disso, a Chinatown de Liverpool é justamente a mais antiga da Europa.  Informações como essa podem ser encontradas em diversas placas distribuídas pela cidade. 

O trabalho de sinalização urbana não apenas torna a cidade mais amigável ao turista, como também envolve melhor a própria população local com a história da sua cidade. 

A experiência em Liverpool me levou a pensar se seria possível uma solução semelhante no Brasil. Em Inhotim e em alguns museus de Belo Horizonte consegui perceber uma tradição de hospitalidade mineira e um investimento em preparar estudantes para o turismo cultural. Mas a característica de cidade portuária que precisou se reinventar me faz pensar mesmo é em Porto Alegre. Há décadas se arrasta o dilema do que fazer com o cais do porto, numa combinação de inércia e controposição entre projetos supostamente mais "sociais" e outros mais "corporativos". O que vi em Liverpool é possível conciliar os dois perfis, desde que os espaços não sejam descaracterizados, seja por projetos sem vinculo com a identidade local, seja pelo simples abandono e sucateamento por falta de um projeto para a cidade. 

Do outro lado do Museu de Liverpool, Pier Head, com terminal de embarque para Birkenhead, cidade vizinha do outro lado do rio Mersey. Apesar de ser o setor modernizado do porto, convive com Three Graces, três prédios históricos relacionados à administração portuária e companhias navais. As Three Graces são parte do patrimônio arquitetônico de Liverpool reconhecido pela Unesco.
Do outro lado do Museu de Liverpool, Pier Head, com terminal de embarque para Birkenhead, cidade vizinha do outro lado do rio Mersey. Apesar de ser o setor modernizado do porto, convive com Three Graces, três prédios históricos relacionados à administração portuária e companhias navais. As Three Graces são parte do patrimônio arquitetônico de Liverpool reconhecido pela Unesco. Interior do Museu de Liverpool.